Gravidez de risco: Fatores que influenciam numa gravidez de risco

A classificação da gestação de alto risco evoluiu e divergiu nas últimas décadas, na medida em que foram estipulados novos critérios para considerar o que é risco. Os obstetras utilizam uma combinação de fatores pré-concepcionais, pré-natais e intraparto que podem contribuir para o estabelecimento de risco à díade mãe-e-filho e determinam a vivência dessa condição (Aumann e Baird, 1996).

Os fatores de risco são os eventos que se associam ou desencadeiam um maior risco no desenvolvimento de uma situação indesejada, como por exemplo os aspectos da hereditariedade (probabilidade de desenvolver problemas psiquiátricos), já ter história de perdas gestacionais (abortos), perda de alguém, mudanças de rotina e doenças gestacionais (Baptista e Furquim, 2003).

Segundo Zampieri (2002), no Brasil, por suas grandes dimensões e principalmente pelas suas diferenças sociais, econômicas e culturais, evidenciam-se fatores de risco diversos para cada região, que podem ser agrupados do seguinte modo:

“Características individuais e condições sociodemográficas desfavoráveis que incluem idade menor do que 17 anos ou maior de 35 anos, baixa escolaridade, condições inadequadas e insalubres no trabalho, condição ambiental desfavorável, peso menor que 45 kg ou maior que 75 kg, altura menor que 1,45m, dependência de drogas, situação conjugal insegura.

História reprodutiva anterior à gestação atual com morte perinatal explicada ou inexplicada, recém-nascido com retardo de crescimento, pré-termo ou mal formado, abortamento, esterilidade e infertilidade, intervalo intrapartal inferior a dois anos, nuliparidade ou multiparidade, síndrome hemorrágica ou hipertensiva e cirurgia uterina anterior.

Doença obstétrica na gravidez atual que contempla os desvios de crescimento uterino, gemelaridade, hidrâmnios, entre outros, trabalho de parto prematuro e gravidez serotina, ganho ponderal inadequado, diabete gestacional, pré-eclâmpsia e eclampsia, amniorrexe prematura, hemorragia da gestação, isoimunização e óbito fetal.

Intercorrências clínicas como cardiopatias, pneumopatias, nefropatias, endrocrinopatias, hemopatias, doenças infecciosas, doenças auto-imunes, genecopatias e epilepsia” (Zampieri, 2002, p. 18).

Segundo Furquim e Baptista (2003), as intercorrências e doenças mais presentes na gestação de alto risco são:

Trabalho de parto prematuro – a gestante entra em trabalho de parto antes do tempo, as hipóteses mais freqüentes para isso são infecção urinária, hidrâminos (crescimento rápido e excessivo do líquido aminiótico), tumores uterinos, nesses casos há uma necessidade de internação. As gestantes demonstram uma preocupação com a vida do bebê, podendo haver um misto de reações, algumas sentem-se reconfortadas e protegidas sob os cuidados médicos, podendo desligar-se dos conflitos familiares e se dedicar mais a gravidez, porém outras sentem-se culpadas por deixar o lar e suas responsabilidades, não se adaptando a hospitalização.

Doença hipertensiva – específica da gravidez é caracterizada pelo aparecimento da hipertensão, edema e proteinúria em gestantes anteriomente normais. Por ser uma doença exclusiva da gestação, seus cuidados são um pré-natal adequado e até um possível parto prematuro para evitar riscos à gestante e ao bebê. Pode-se observar que os fatores psicológicos influenciam diretamente nos níveis pressóricos, principalmente em situação de estresse e ao estilo de vida que a paciente leva. As gestantes, por perceberem como doença grave, demonstram-se extremamente ansiosas frente ao diagnóstico, principalmente por desconhecerem a forma de controle, seus sintomas e sua internação que pode ser longa para controlar os níveis pressóricos.

Diabetes Gestacional é desenvolvida durante a gravidez caracterizada pela decomposição dos níveis glicêmicos da gestante, requerendo internação para um melhor diagnóstico e compensação das taxas de glicemia. As gestantes demonstram ansiedade com a descoberta do diagnóstico e os cuidados que este requer, principalmente devido a alteração da dieta alimentar. Muitas gestantes apresentam mais apreensão neste diagnóstico, em decorrência da história de vida de familiares que tiveram diabetes, fazendo associações as histórias que são cheias de dificuldades e sofrimento, o que gera maior ansiedade e crenças disfuncionais com relação ao seu quadro clínico.

A amniorrexe prematura é caracterizada pela ruptura da membrana amniótica, quando o colo ainda está imaturo e o feto é prematuro, esta intercorrência gera muita ansiedade na gestante, pois como não tem causa específica, geralmente busca identificar fatores que poderiam desencadear o rompimento da bolsa, por exemplo, como o excesso de esforço físico. As gestantes se angustiam com sentimentos de culpa, achando que colocaram em risco a vida do bebê, além de fantasiar os motivos que levariam o bebê a querer nascer antes do tempo. Imaginam que o bebê está se apressando para nascer personificando-o como o “bebê apressadinho”, ou que o bebê está pondo sua própria vida em risco, desencadeando sentimentos de rejeição, de que ela não é uma boa mãe por não “segurar” o seu filho.

O óbito fetal pode ocorrer durante a gravidez, no momento do parto, ou logo após o nascimento. As gestantes podem experimentar um misto de revolta, inconformismo e tristeza. São muitas as fantasias que surgem neste momento em relação ao próprio bebê e a ela enquanto mãe, podendo aflorar sentimentos de culpa por acreditar que tenha feito algo que trouxesse essas complicações e de falhas por achar que não consegue gerar bebês saudáveis.

Ortolani (2003), fez um estudo sobre gestação de risco com o objetivo de estudar os fatores que levam a mobi-mortalidade materna e a necessidade de conhecer melhor o perfil das gestantes. Foram escolhidos como locais as unidades básicas de saúde estratégicas da Microregião 5 – Sul – Santo Amaro, Distrito de Saúde do Socorro, para avaliar os fatores de risco no pré-natal. Dessas unidades foram gerados três grupos que foram comparados, do Ambulatório do Hospital Escola Wladimir Arruda, o do Centro de Saúde Escola da OSEC e do Qualis, juntamente com as Unidades Básicas do SUS que posteriormente foram chamadas de Qualis-SUS.

A amostra foi composta de 200 gestantes, divididas em 54 para o Ambulatório do HEWA, 87 para o CSE e 59 para o Qualis-SUS, o estudo foi feito através de entrevistas e as gestantes passaram também por um pré-atendimento, onde se realizou a pesagem, mensuração e aferição da pressão arterial. Levantou-se variáveis sobre as características individuais, sócio-demográficas, a história obstétrica anterior e atual, dados sobre exames laboratoriais e hábitos e habitações, algumas variáveis foram pesquisadas também nos companheiros.

Os dados pesquisados revelaram uma significância quando se comparou as variáveis, números de gestações, pressão arterial sistólica, hemograma e suplementação. A avaliação do serviço prestado no pré-natal na rede básica mostrou que a falta de padronização nos serviços de saúde para o pré-natal de baixo risco, referência e contra-referência ao pré-natal de alto risco, falha no fluxo de exames de rotina do pré-natal, inconsistência na consulta que é caracterizada na figura do médico e falha na captação, além de medidas educativas que levam a gestante a participar mais do auto-cuidado e prevenção de complicações (Ortolani, 2003).

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